Na política, a coerência costuma ser uma das qualidades mais cobradas pelos eleitores. Em Sinop, uma comparação recente envolvendo o vereador Marcos Vinícius Borges reacendeu esse debate.
Quando o município conquistou R$ 500 mil destinados à saúde, especialmente para ajudar em cirurgias eletivas, a reação do vereador foi dura. Em sua fala, ele chegou a minimizar o valor, afirmando que aquilo seria apenas uma “esmola” e que a cidade não precisava desse tipo de recurso.
A declaração chamou atenção justamente por se tratar de verba voltada a uma das áreas mais sensíveis para a população: a saúde pública. Em um cenário em que filas por cirurgias e procedimentos ainda são uma realidade em muitos municípios brasileiros, cada recurso costuma ser visto como um avanço importante.
Mas o discurso mudou.
Recentemente, o vereador passou a divulgar com intensidade nas redes sociais a conquista de R$ 300 mil para um projeto de castração móvel, o chamado Castra Móvel. Vídeos, publicações e entrevistas passaram a destacar o recurso como uma conquista relevante para o município.
A comparação entre os dois episódios inevitavelmente levanta uma pergunta: por que R$ 500 mil para a saúde foram tratados como algo sem importância, enquanto R$ 300 mil passaram a ser apresentados como grande vitória?
A diferença, segundo críticos da postura do parlamentar, pode estar no protagonismo político. No primeiro caso, tratava-se de uma conquista vinculada à gestão municipal. No segundo, trata-se de um projeto diretamente associado à atuação do próprio vereador.
Esse tipo de situação reforça uma percepção comum na política: quando a lógica passa a ser “se não fui eu que fiz, não presta”, ou até mesmo “quanto pior, melhor”, qualquer ação da gestão passa a ser alvo de críticas — enquanto iniciativas próprias são amplamente celebradas.
É claro que a causa animal é uma pauta legítima e importante. Políticas de castração ajudam no controle populacional de animais e podem trazer impactos positivos também na saúde pública.
Mas a comparação entre os dois momentos acabou expondo algo maior do que a disputa de narrativas: a diferença de tratamento quando o recurso beneficia a população de forma ampla ou quando gera capital político individual.
No fim das contas, o eleitor observa, compara e tira suas próprias conclusões.
E na política, memória costuma ser algo que pesa — especialmente quando discursos tão diferentes aparecem lado a lado.



