A campanha eleitoral mal começou, mas Otaviano Pivetta (Republicanos) já tem um número para exibir como demonstração de força: 133 prefeitos de Mato Grosso declararam apoio à sua candidatura à reeleição.
É um número expressivo e não há razão para diminuir sua importância política. Ter ao lado mais de uma centena de prefeitos significa estrutura, presença nos municípios, capacidade de articulação e uma rede de lideranças que qualquer candidato ao Governo gostaria de apresentar.
O problema começa quando uma fotografia de prefeitos passa a produzir a sensação de que a eleição já está encaminhada.
Porque prefeito declara apoio. Eleitor declara voto — e, na maioria das vezes, só para a urna.
Na terça-feira (18), Pivetta reuniu a demonstração de força que sua campanha queria mostrar. Uma carta com o apoio de 133 prefeitos foi apresentada durante encontro na Casa 10, sede estadual do Republicanos, em Cuiabá.
No dia seguinte, a campanha foi para Confresa e encontrou uma fotografia bem diferente.
A própria agenda divulgada pelo Republicanos anunciava, às 16h, uma “reunião com prefeitos, vereadores e líderes religiosos da região”, na Igreja Batista Nacional. Não se tratava, portanto, de uma visita improvisada ou de um encontro que apareceu de última hora na programação.
Era agenda previamente anunciada pela própria campanha.
De 133 prefeitos apresentados como demonstração de força política em Cuiabá para aproximadamente 22 participantes em uma agenda regional no dia seguinte.
É evidente que um encontro com público reduzido não decide uma eleição. Da mesma maneira, uma carta assinada por 133 prefeitos também não decide.
É justamente essa a questão.
A política de Mato Grosso parece, às vezes, ainda excessivamente fascinada pela quantidade de prefeitos que um candidato consegue colocar ao seu redor. Faz sentido até certo ponto. Prefeitos têm influência, lideram grupos políticos e mantêm contato diário com a população.
Mas estamos em 2026, não nos tempos do coronelismo.
O Brasil já viveu uma época em que chefes políticos locais exerciam enorme influência sobre comunidades e o chamado voto de cabresto transformava relações de dependência e poder político em instrumentos de controle eleitoral.
Esse tempo ficou para a história — ou pelo menos deveria ter ficado.
Hoje, prefeito não é dono dos votos de sua cidade.
Pode apoiar Pivetta, subir no palanque de Pivetta, vestir a camisa de Pivetta e pedir voto para Pivetta. É um direito político.
O eleitor daquela mesma cidade pode ouvir tudo isso, agradecer a sugestão e votar em outro candidato.
Também é um direito. E é justamente esse o mais importante.
Há ainda uma particularidade que não pode ser ignorada nesta eleição: Pivetta não disputa o Governo apenas como candidato. Disputa sentado na cadeira de governador de Mato Grosso.
E a caneta de um governador tem peso.
Prefeitos mantêm relações institucionais permanentes com o Governo do Estado. Buscam convênios, investimentos, estradas, pontes, máquinas, recursos e inúmeras parcerias necessárias para administrar seus municípios.
Por isso, quando um governador candidato apresenta o apoio de 133 prefeitos, a liberdade dessas adesões precisa ser tratada como princípio básico.
Não há, até aqui, elemento que permita afirmar que os 133 prefeitos foram coagidos a apoiar Pivetta. Fazer essa afirmação sem provas seria irresponsável.
Mas também seria ingênuo ignorar a relação de poder existente entre quem administra um município e quem ocupa o comando do Estado durante uma campanha eleitoral.
É justamente por isso que qualquer tentativa de pressão política, caso exista, deve ser repudiada.
A caneta do Governo não pode servir como instrumento para conquistar apoio eleitoral.
Prefeito precisa ter liberdade para dizer sim.
E, principalmente, liberdade para dizer não.
Se os 133 prefeitos escolheram Pivetta espontaneamente, ótimo. Que defendam sua escolha, subam no palanque e tentem convencer seus eleitores.
O que ninguém pode imaginar é que junto com cada assinatura venha anexado o eleitorado daquele município.
Não vem.
Prefeito não entrega cidade. Vereador não entrega bairro. Deputado não entrega região. E governador não entrega Estado.
A eleição é individual.
Talvez por isso Confresa tenha produzido um contraste político tão interessante.
Na véspera, a campanha havia colocado 133 prefeitos na vitrine. No dia seguinte, uma reunião anunciada oficialmente para receber “prefeitos, vereadores e líderes religiosos da região” registrou cerca de 22 participantes, conforme os registros contabilizados pelo portal.
Pode ter sido o horário. Pode ter sido o formato. Pode ter sido falta de mobilização. Pode ter sido uma série de fatores.
O que não se pode fazer é transformar esse único encontro em previsão eleitoral.
Mas também não é possível fingir que o contraste não existe.
Ele serve, no mínimo, para lembrar que há uma diferença enorme entre articulação política e mobilização popular.
Pivetta demonstrou capacidade para construir a primeira. A campanha terá agora de mostrar que consegue transformar essa rede de apoios na segunda.
E esse talvez seja o verdadeiro teste dos 133 prefeitos.
Não é quantos assinaram uma carta em Cuiabá, mas quantos conseguem convencer livremente os cidadãos de seus municípios.
Porque apoio político não é procuração eleitoral.
A cadeira de governador é temporária. A caneta também.
O voto continua pertencendo ao eleitor.
Pivetta tem todo o direito de comemorar os 133 prefeitos. Politicamente, é uma demonstração relevante de força e articulação.
Só não pode confundir apoio de prefeito com voto de eleitor.
A democracia brasileira levou tempo demais para superar a lógica de que lideranças locais poderiam determinar como a população deveria votar. Não há espaço para ressuscitar essa mentalidade em pleno 2026.
A campanha está apenas começando. Haverá eventos cheios, outros nem tanto, novas adesões, pesquisas, debates e muitas fotografias de lideranças declarando apoio.
No final, entretanto, nenhum dos 133 prefeitos poderá acompanhar o eleitor até a urna.
E nenhuma caneta de governador entra junto com ele.
Em Confresa, ao menos nessa agenda, ficou uma lembrança simples para quem eventualmente esteja contando prefeitos como se estivesse contando votos:
faltou combinar com o povo.



