A Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) reafirma seu protagonismo na educação inclusiva e intercultural com a publicação de um estudo inédito que analisa a integração da Medicina Tradicional Indígena (MTI) na formação acadêmica de enfermeiros. O artigo foi publicado na revista científica Acta Paulista de Enfermagem, uma das mais relevantes da área no país.
A pesquisa qualitativa foi liderada pelo professor Vagner Ferreira do Nascimento, coordenador de preceptoria do curso de Enfermagem Intercultural Indígena da Unemat, e teve como base as experiências da primeira turma do bacharelado. O grupo é formado por 50 estudantes pertencentes a 42 povos indígenas diferentes, oriundos de todos os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) de Mato Grosso — considerada a maior diversidade étnica já registrada em uma formação em enfermagem no mundo.
Diálogo de saberes
O estudo destaca que a inserção da Medicina Tradicional Indígena no currículo vai além de uma inovação pedagógica, configurando-se como um ato de valorização e resistência cultural. Os acadêmicos relataram que práticas como o uso de plantas medicinais, rezas e rituais, orientadas por curandeiros e raizeiros, possibilitam uma atuação profissional mais holística, autônoma e culturalmente aceita nas comunidades.
“O enfermeiro precisa compreender esses dois mundos para conseguir trabalhar de forma aceitável e completa”, relata um dos participantes da pesquisa.
A formação prepara os profissionais para atuar em regiões remotas, onde o acesso à medicina convencional é limitado, permitindo o cuidado desde doenças comuns, como gripes, até o acompanhamento de doenças crônicas e cuidados paliativos.
Práticas avançadas de enfermagem
A integração entre saberes tradicionais e científicos dialoga diretamente com os princípios das práticas avançadas de enfermagem, ampliando a capacidade clínica e a autonomia profissional. O modelo adotado pela Unemat propõe o aprofundamento técnico aliado ao conhecimento cultural, essencial para a gestão do cuidado em territórios indígenas.
Para o professor Vagner Nascimento, o reconhecimento desses saberes fortalece a confiança das comunidades nos profissionais formados. “A Medicina Tradicional Indígena é um recurso fundamental para o enfermeiro indígena. Profissionais que dominam esse conhecimento têm condições de liderar a saúde de suas comunidades”, destaca o estudo.
Referência acadêmica
O trabalho é resultado de uma parceria interinstitucional entre o Núcleo de Pesquisa e Extensão em Política, Planejamento, Organização e Práticas Individuais e Coletivas em Saúde (Npeps), da Unemat, e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação de Serviços de Saúde e Enfermagem (GPqualis), da Universidade de São Paulo (USP).
Além dos docentes da Unemat Vagner Nascimento, Ana Cláudia Terças-Trettel e Cristina Gregolin, o artigo conta com a colaboração da mestranda da Escola de Enfermagem da USP Ana Raquel Rangel, egressa da Unemat, e dos professores da USP Hércules Oliveira do Carmo e Maristela Martins. A pesquisa utilizou a plataforma Requality.ia para análise de dados e teve apoio do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).



